‘De repente dá certo’

super

Este é o título de um livro que li no início da minha adolescência e cuja essência demorou para penetrar em mim, mas Ruth Rocha permaneceu em mim até hoje. Incrível! Pode ser apenas uma frase de efeito, mas faz todo um sentido. É melhor arriscar do que ficar parado.
Lembro-me das aulas da faculdade nas quais um professor dizia que o processo é mais importante que os fins. Contradizendo o conhecido pensamento maquiavélico de que ‘os fins justificam os meios’. Nada mais natural que um historiador se importar mais com o meio do caminho e nele se divertir, do que no resultado final. Com este professor também aprendi que podemos conhecer o fim do filme ou do livro e mesmo assim degustá-lo de maneira única. Aliás, podemos ler inúmeras vezes um livro e ele sempre dirá coisas diferentes, da mesma forma que não podemos nos banhar duas vezes nas águas de um mesmo rio. É a problemática da história com tempo e espaço. Ah! O tempo este menino travesso! Não conseguimos nem ao menos descrevê-lo de forma palpável.
Com este meu processo de aprendizagem, meu senso crítico cresceu e chegou a dimensões exorbitantes, quase como a inflação estava na década de oitenta! Parei de acreditar no mundo cor-de-rosa, finais felizes e príncipes encantados. Aprendi que o mundo pode ter várias cores e por isso se torna interessante, embora a maior parte do tempo sejam tons de cinza que imperem. Os finais existem e na maioria não são felizes. Por ser membro da sociedade ocidental fico triste quando há um fim, seja de um filme, de uma vida, de uma barra de chocolates, de uma viagem ou de um romance. E aqui volto a falar do processo. Sabendo que os fins existem, passei a não acreditar mais nos começos. Afinal pra que começar algo se vai acabar? Pelo processo! Por tudo aquilo que aprendemos e conhecemos ao longo de um caminho. A segunda vez vai ser mais fácil que a primeira e assim sucessivamente. É claro que o encantamento do novo se perde, mas a beleza do caminhar torna-se mais plausível.
Nunca vamos nos apaixonar tanto quanto com nosso primeiro amor, no entanto os demais vão ser mais reais e menos idealizados (eu disse menos, pois sempre idealizamos!). Em outros casos, a primeira experiência é justamente a pior e ficamos felizes ao descobrir que outras virão.
A magia com o tempo vai dando lugar ao mundo. Os olhos de uma bixete de 18 anos perdem o brilho ao longo da graduação. O mercado de trabalho pode nos tornar mais duros e acinzentados, mas não podemos esquecer que há outras cores no mundo. Há outras flores no campo e nem sempre o gramado do vizinho é melhor. Lembrem-se que o seu gramado é seu! E cabe a cada um de nós cultivar nossas begônias, margaridas e orquídeas.
O filme “Terra das sombras” ainda ecoa em mim com estas palavras “a tristeza de hoje faz parte da felicidade de então”. Tudo faz parte do processo. Precisamos aprender quanto de água as plantas do nosso jardim precisam e com qual frequência devemos regá-las. Quando será necessário adubar? Como fazê-las florescer ou dar frutos? Só a prática pode nos trazer respostas, seja pela pesquisa ou consultoria com pessoas que conheçam tal flora mais adequadamente ou no caso da vida, simplesmente se permitindo viver!
E a pergunta mais importante, eu diria que é: “Como?”. Como fazer da sua vida algo intenso, produtivo e feliz? Respostas? Tenho uma: cada um tem a sua forma, cada um tem a sua resposta. Portanto: precisamos viver. O futuro a nós pertence e somos responsáveis por nossa colheita de amanhã, não podemos nos prender nos remorsos e na história contrafactual. Como diria o super-homem: Para o alto e avante!

2 thoughts on “‘De repente dá certo’

  1. Patricia Sao Miguel diz:

    Quando as palavras me faltam, recorro a quem as melhor domina…

    “E há uma grande vontade de viver, todo o nosso ser pede para viver, e, inflamado com a esperança mais ardente, mais cega, o nosso coração parece desafiar o futuro, com todo o seu mistério, com todo o desconhecido, ainda que em tempestades e tormentas, contanto que isso seja vida!” Dostoiévski

    Gostei muito do seu post, obrigada por me lembrar sobre o processo!
    beijos

  2. David diz:

    Loiê, dá certo mesmo. O processo é tudo, embora estejamos obsecados com o(s) resultado(s) nesse mundo doido. Também me lembro de uma de minhas primeiras aulas sobre sociologia, quando da mudança da paisagem urbana na França e afins, a simples viagem em busca da feira nas vilas, que chegavam a durar 3 ou mais dias pernoitando-se em Igrejas e casebres ao longo do caminho, tornou-se simplesmente uma longa viagem de algumas horas para levar verduras e legumes para a feira de domingo.

    Coisas malucas da vida. Hoje qualquer “viagem” para o supermercado que dure mais de 20 minutos no trânsito já aborrece a gente. Podemos até gastar horas lá dentro, mas a ida e volta não podem ser demoradas… afinal o processo mudou.

    Beijokas!

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