Tempo

Coelho - Alice

“Tempo, tempo, tempo, mano velho

Vai, vai, vai, vai, vai, vai
Tempo amigo seja legal”

Pato Fu, meus conterrâneos queridos, obrigada por me falar do tempo. Este é um assunto, um sujeito muito interessante. Precisamos cada vez mais dele, e sabemos gradativamente menos sobre o mesmo. O Coelho de Alice não estava “de bem” com o tempo, por isso corria tanto. Será que não precisamos ser amigos do tempo novamente?

Com toda essa pressão de produzir mais e mais rapidamente para termos mais lucro, para chegarmos antes, para sermos mais bem sucessidos, esquecemos da nossa humanidade. Deixamos de lado nosso tempo pessoal, nem mais lembramos que cada um tem seu ritmo, e nos frustramos quando não fazemos tão facilmente ou agilmente quanto esta ou aquela pessoa.

O tempo também nos ensina e muito. Ansiosos que somos pelos resultados, não aproveitamos o tempo, como faríamos com um amigo. Os dias passam rápido demais e nem vemos, ou quando esperamos aquela resposta ou aquele telefonema, aí as horas se transformam em dias. Ah, o Tempo brinca conosco. E nós só o maldizemos.

Obrigado ao Tempo, por ter me feito aprender tanto!

Desculpas também lhe devo, afinal, se não estou na correria, estou fazendo o tempo passar. Da mesma forma que faria com uma visita indesejada em minha casa.

Será que sou a única a maltratar o tempo?

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‘De repente dá certo’

super

Este é o título de um livro que li no início da minha adolescência e cuja essência demorou para penetrar em mim, mas Ruth Rocha permaneceu em mim até hoje. Incrível! Pode ser apenas uma frase de efeito, mas faz todo um sentido. É melhor arriscar do que ficar parado.
Lembro-me das aulas da faculdade nas quais um professor dizia que o processo é mais importante que os fins. Contradizendo o conhecido pensamento maquiavélico de que ‘os fins justificam os meios’. Nada mais natural que um historiador se importar mais com o meio do caminho e nele se divertir, do que no resultado final. Com este professor também aprendi que podemos conhecer o fim do filme ou do livro e mesmo assim degustá-lo de maneira única. Aliás, podemos ler inúmeras vezes um livro e ele sempre dirá coisas diferentes, da mesma forma que não podemos nos banhar duas vezes nas águas de um mesmo rio. É a problemática da história com tempo e espaço. Ah! O tempo este menino travesso! Não conseguimos nem ao menos descrevê-lo de forma palpável.
Com este meu processo de aprendizagem, meu senso crítico cresceu e chegou a dimensões exorbitantes, quase como a inflação estava na década de oitenta! Parei de acreditar no mundo cor-de-rosa, finais felizes e príncipes encantados. Aprendi que o mundo pode ter várias cores e por isso se torna interessante, embora a maior parte do tempo sejam tons de cinza que imperem. Os finais existem e na maioria não são felizes. Por ser membro da sociedade ocidental fico triste quando há um fim, seja de um filme, de uma vida, de uma barra de chocolates, de uma viagem ou de um romance. E aqui volto a falar do processo. Sabendo que os fins existem, passei a não acreditar mais nos começos. Afinal pra que começar algo se vai acabar? Pelo processo! Por tudo aquilo que aprendemos e conhecemos ao longo de um caminho. A segunda vez vai ser mais fácil que a primeira e assim sucessivamente. É claro que o encantamento do novo se perde, mas a beleza do caminhar torna-se mais plausível.
Nunca vamos nos apaixonar tanto quanto com nosso primeiro amor, no entanto os demais vão ser mais reais e menos idealizados (eu disse menos, pois sempre idealizamos!). Em outros casos, a primeira experiência é justamente a pior e ficamos felizes ao descobrir que outras virão.
A magia com o tempo vai dando lugar ao mundo. Os olhos de uma bixete de 18 anos perdem o brilho ao longo da graduação. O mercado de trabalho pode nos tornar mais duros e acinzentados, mas não podemos esquecer que há outras cores no mundo. Há outras flores no campo e nem sempre o gramado do vizinho é melhor. Lembrem-se que o seu gramado é seu! E cabe a cada um de nós cultivar nossas begônias, margaridas e orquídeas.
O filme “Terra das sombras” ainda ecoa em mim com estas palavras “a tristeza de hoje faz parte da felicidade de então”. Tudo faz parte do processo. Precisamos aprender quanto de água as plantas do nosso jardim precisam e com qual frequência devemos regá-las. Quando será necessário adubar? Como fazê-las florescer ou dar frutos? Só a prática pode nos trazer respostas, seja pela pesquisa ou consultoria com pessoas que conheçam tal flora mais adequadamente ou no caso da vida, simplesmente se permitindo viver!
E a pergunta mais importante, eu diria que é: “Como?”. Como fazer da sua vida algo intenso, produtivo e feliz? Respostas? Tenho uma: cada um tem a sua forma, cada um tem a sua resposta. Portanto: precisamos viver. O futuro a nós pertence e somos responsáveis por nossa colheita de amanhã, não podemos nos prender nos remorsos e na história contrafactual. Como diria o super-homem: Para o alto e avante!

O apanhador, o campo e o centeio

the catcher

Sim! Sallinger. A passagem que acaba por nomear o livro “O Apanhador no Campo de Centeio” me é muito recorrente. E após ler um texto, há alguns dias, não a tirei da cabeça, portanto compartilho com vocês. Eis o trecho no qual Holden, a personagem que nos guia através das páginas, e sua irmã Phoebe conversam sobre o que ele gostaria de fazer da vida:

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer.”

Dito isto, a pergunta é: o que é o abismo?

Acreditei por muito tempo que o precipício era uma metáfora para o amor. No entanto, estes dias que passaram me fizeram rever o tal do penhasco. Talvez seja a Vida, sim precisamos de amor nela, mas seus limites transcendem o emocional.

Pode ser que o amor esteja presente em todos os âmbitos de nossa vida. O que seria do trabalho, sem o gosto por fazê-lo? Ou da família, sem a vontade de reencontrar? Do lazer, sem a paixão por um hobbie? Dos amigos, sem o ‘conte comigo’?

A idéia é que precisamos nos atirar em direção à Vida, que não deixa de ser uma grande dúvida. Você pode controlar as coisas até certo ponto, depois elas se esvaem de suas mãos. E o controle já é de outro. Daí, precisamos exercitar a confiança no outro. Às vezes, nos surpreendemos e às vezes não. Podemos receber o que esperamos, algo melhor, pior ou nada! Seu espaço é seu até que chegar o limite do outro, assim como uma teia de relações.

Atirar-se é difícil. Exige desprendimento? Bem provável. Porém, o mais necessário é a vontade de se mexer. Sair do lugar. Experimentar o novo, o diferente, o seu limite! Desta forma, nos descobrimos, nos encontramos, ou quem sabe aprendemos. A esperança é que no fim da queda exista alguém te esperando – um Apanhador. Se estiver ou não, não importa, mas sim o que faremos a partir disto. Logo haverá outro precipício e mais outro. E ficar parado, de fato, não leva a lugar nenhum (ou justamente ao nenhum lugar, que pode ser altamente incômodo).

Outra questão, o quando. Qual seria o momento de se atirar? O tempo pode significar existir alguém ou não à sua espera. E tempo certo? Aliás, certo e errado são concepções cheias de tonalidades.

Creio que esta discussão não tem fim…

O vazio, o nada e seus paradoxos

Simio em duvida

“Vazio” e “nada”, palavras que podem ter sentidos próximos, mas tem uma diferença crucial. O nada é uma ausência completa, enquanto o vazio pressupõe ao menos um contorno, uma carapaça. Esta última pode servir de armadura, como no “História Sem Fim” os cavaleiros ocos. Mas se era oco, o que era protegido pela couraça?

Ao que eu saiba, a proteger é um verbo bitransitivo que exige um sujeito e nos habilita a perguntar “o quê?” e “de quê?”. Portanto, se há uma proteção, há algo a ser preservado e desta forma, se for o vazio que está sendo protegido, ele torna-se algo, mesmo sendo o ‘nada’. Pode não ser palpável, mas está lá. Isso é contraditório e mais que isso, é instigante.

Como já disse outrora, estamos num momento que a superficialidade é deveras comum entre nós. E a tendência a nos fixarmos na aparência, pode nos levar a crer que o mundo está oco e que qualquer tentativa de aprofundamento seria frustrante. Prefiro acreditar que por dentro as pessoas são densas e preferem não expor sua intimidade. Cada um tem uma forma de encarar a vida e isso não quer dizer que são mais ou menos cultas, apenas pensam diferentemente, tem formas de se expressar ou de conhecer o mundo distintas das minhas ou das suas.

Falando mais uma vez do “História Sem Fim”, Fantasia estava e está sendo atacada pelo nada. Basta acreditar e dar um novo nome a Imperatriz Criança ou mesmo ao próprio nada para que o reino de Fantasia seja salvo. Acreditar pode ser difícil, mas deixar pra lá e viver apenas o palpável, pode nos deixar sem sentido. E afinal, até o Homem de Pedra tem sensações, sentimentos e seu sentido! Ou se preferirem mudar de história, o Homem de Lata – do “Mágico de Oz” – também busca seu coração e tem sua função na história com Dorothy.

No final das contas, será que o vazio ou o nada existem?

A pedra

obelix

São tantas informações no mundo, tantas vozes, tantas opiniões, tantas formas de divulgar idéias. Para formarmos nossa opinião, é necessário ouvir essa gritaria que a mídia nos promove? De fato, precisamos saber filtrar, e filtramos. Uma questão que fica é só escutamos aquilo que queremos?

Conseguimos distinguir e assimilar símbolos a partir do momento que os conhecemos, não será a mesma coisa com as informações. Selecionamos o que gostamos, concordamos e continuamos num círculo vicioso e repetitivo dentro do nosso próprio universo?

Seria triste de viver assim, sem a oportunidade de mudar de opinião, de aprender algo novo, de discutir e convencer outra pessoa, ou ainda, conversar e chegar a uma terceira idéia. Forma-se um outro problema: quem está disposto a esta difícil tarefa? Ouvir é uma ação complexa e exprimir-se outra. Manter essa atitude é um processo árduo, mas necessário.

Quem disse que seria fácil? Lembrando Coldplay “nobody said it’d be that hard”. Aprendemos a partir das dificuldades, o resultado final e pronto de nada adianta. O interessante é o caminho e “no meio do caminho tinha uma pedra”, o que fazer com ela? Uma resposta que cada um constrói a sua maneira.

E a sua qual é?